Pedro: minha verdadeira metamorfose

Pedroca fará aniversário na próxima quarta-feira, dia 19. Mas não tem como não reviver todo o sentimento do nascimento do piázito hoje, sábado aleluia. Ele escolheu essa data tão simbólica para a nossa sociedade para vir a esse mundão.

Faz três anos já, mas seu eu fechar os olhos agora, consigo reviver todas as cenas na minha memória: o bolsa estourando, acordar o Xuxu e contar que as contrações começaram, o telefonema para o médico, o banho, a subida de Pontal para Curitiba ao som de Los Hermanos, o exame de toque ao chegar no hospital que já marcava de 4 pra 5, a tentativa (frustrada) de retardar o nascimento do bebê pra 48 horas no mínimo, a apreensão dos médicos pela falta de vaga de UTI Neonatal em todas as maternidades de Curitiba e região, a apreensão maior da médica plantonista em verificar que a medicação pra retardar as contrações e as dilatações não estavam funcionando e já estava praticamente parindo o bebê no quarto, na maca no caminho até a sala fazer a oração de são franscisco, entrar na sala de parto e ver que inacreditavelmente naquele manhã curitibana tinha sol, cantar “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais” junto das enfermeiras, o Xuxu todo vestido de azul chegando junto do pediatra, chorar e sorrir ao ver o meu pedroquinha, dar um cheirinho e beijinho rápido e ver meu bebê se afastar rapidamente para os procedimentos necessários pela prematuridade, acreditar que a vaga do Pedroca apareceria em horas, ligar para os meus pais contado a novidade, abraçar meus sogros e, agradecer, agradecer, agradecer muito a Deus a oportunidade de ter o Pedro nos braços, ou quase, né, já que por ser prematuro precisava ficar na UTI (ufa, acho que consegui resumir em menos de 2 mil caracteres).

O sábado de aleluia é também conhecido como vigília pascal, período em que as pessoas se reúnem em profunda oração aguardando a ressurreição de Jesus. Esse é um dia de reflexão, de espera pela volta de Jesus para salvar os homens, um ato de amor supremo e verdadeiro pela humanidade. É neste dia que se acende o círio pascal, uma grande vela que simboliza a luz do Cristo, que ilumina o mundo.

Traçando um paralelismo do sábado aleluia e do dia que que se segue, a páscoa, a ressurreição de Jesus, o nascimento do nosso Pedroca fez exatamente o que a palavra páscoa significa, passagem.  Eu tive a oportunidade de vivenciar uma verdade passagem, de deixar morrer em mim o que não cabia mais, o que já não servia, e me permiti ao novo, deixar que o florescer pudesse habitar em mim.

LAGARTA/CASULO/BORBOLETA

E foi naquele sábado aleluia que tive minha passagem para a verdadeira Anne crente, pessoa de fé. Foi ali que deixei meu casulo e me enxerguei como borboleta. Sempre achei que tivesse fé, sempre acreditei em Deus e em Jesus. Mas foi naquele momento que pude exercitar de fato minha fé. Eu tinha certeza de que o Pedro ia nascer naquele dia (que não daria tempo de esperar 48 horas para o corticoide fazer efeito), eu tinha certeza de que seria um parto maravilhoso e rápido. Eu tinha certeza de que a plantonista saberia o que fazer. Eu tinha certeza que uma vaga de UTI Neonatal apareceria. Eu tinha certeza de que depois da tempestade viria a bonança.

É muito fácil dizer que tem fé, que acredite em Deus, rezar e dizer “seja feita tua vontade”. Mas vivenciar a fé, acreditar que Deus realmente sabe o que faz, entregar a vida do teu filho nas mãos de Deus e dizer “seja feita a tua vontade” é difícil.

É assim para toda lagarta que se transforma em borboleta. Dói, dá medo, gera ansiedade. Mas é um movimento expansivo, grande e libertador!

Pedroca, há três anos, assim como o círio pascal ilumina o mundo, você ilumina minhas manhãs e aquece minhas noites! Obrigada por ensinar tanto desde aquele sábado aleluia tão significativo.

 

Estreia antecipada – O nascimento prematuro do Pedro*

Não existe explicação direta. Sem diabete gestacional, sem pressão alta, sem anemia, sem muito peso (engordei apenas 7 ½ kg), sem infecção. Com alimentação saudável (exceto um brigadeirinho aqui, um hambúrguer ali), com yoga duas vezes na semana e com hidroginástica duas vezes na semana.

Fiz ecografia na quarta, tudo certo! Consulta na quinta! Tudo certo! Posso viajar, doutor? Claro, vai tranquila. Na sexta-feira santa, praia com a família! Sobrinhos brincando o dia todo, bacalhoada delícia que o marido fez!!! E na madrugada, veja só! Parece que estou fazendo xixi na cama, ops, não é xixi porque não consigo segurar. Como não estava sentindo dores e estudei muito pois queria um parto o mais natural possível, sabia que o fato de a bolsa ter estourado não significaria que o bebê já estava a caminho. Como era 4 da matina preferi descansar e acordar o maridão no comecinho da manhã. Voltei pra cama, cheguei a pegar no sono, mas menos de uma hora depois comecei a sentir leves contrações. Hora de acordar o Xuxu. Amor, acho que precisamos subir pra Curitiba. Por quê? Acho que minha bolsa estourou e comecei a sentir contrações. Acenda a luz e vamos.

Acho que a serra de Pontal do Paraná a Curitiba nunca foi tão curta pela rapidez com que chegamos na maternidade. Internei as 6h da manhã com 4 pra 5 de dilatação. O plano clínico era tomar uma injeção de corticoide para amadurecer o pulmãozinho do bebê e tomar medicamentos para inibir o trabalho de parto e assim conseguir segurar por 48h. Eu estava com crise de riso. Só dava risada! Quando os médicos disseram isso, pensei. Tudo bem, mas acho que não vai dar certo. O Pedro vai nascer hoje e vai ser daqui a pouco. Intuição de mãe não falha mesmo. Duas horas depois fui examinada novamente, as medicações não inibiram as contrações e neste momento já estava com dilatação total. E mais uma vez, eu ria! Conseguia sentir o pânico da obstetra plantonista.

Xuxu branco, sogra em pânico, sogro preso no pedágio sem dinheiro para pagar a passagem e eu só conseguia pensar: “Tu vens, tu vens, eu já escuto o teus sinais” (…) meu Deus, daqui a pouquinho o Pedro não vai estar mais dentro do meu ventre e sim em uma incubadora. Como Deus é generoso comigo e estou tendo esse atendimento. E melhor, é sábado aleluia e está um céu lindo em Curitiba! Entrei no centro cirúrgico às 8h10, 8h20 o Xu e o pediatra chegaram, e a obstetra pediu para eu fazer força, na terceira vez senti o Pedro coroando e na quarta ele saiu por completo. Era 8h29. Pude dar um beijo e um cheiro no meu bebezinho e o Xuxu já estava acompanho o Pedro até o bercinho aquecido. É claro que sonhei com aquele momento e nos meus sonhos o meu filhinho já viria direto para o meu colo, meu seio.

Engraçado! Faço parte de vários grupos de mães de prematuros nas redes sociais, conheci várias mamães de prematuros durante o período em que o Pedro esteve na UTI Neonatal, mas não me pareço com a maioria delas. Sem desmerecer o sentimento de ninguém e acreditando na nossa unicidade, acredito mesmo que cada um tem um jeito de encarar as situações. Eu não conseguia ficar triste, desanimada. Ter o Pedro vivo, respirando, reagindo, me deixava feliz. É claro que a preocupação me rondava. Mas a tristeza não. Nem sei bem dizer de onde eu tirava tanta certeza de que logo ele estaria em casa com a gente. Mas eu simplesmente sabia. Tinha a certeza de que mais dia, menos dia, tudo iria estar ao “normal”.

Sei que a palavra ‘UTI’ assusta. Familiares e amigos ligando, mandando mensagens, super preocupados com o que estava acontecendo, porque o Pedro estava na UTI ainda. É grave? É sério? Também não tinha pressa. É claro que queria abraçar e beijar meu filho, sentir seu cheiro, sua pele macia o tempo inteiro. Mas eu sabia que o melhor lugar que ele poderia estar era ali, monitorado e acompanhado por médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem.

Devo essa minha postura a forma em que fui criada. Minha mãe sempre foi uma mulher de muita fé. Meu pai, sempre muito otimista apesar de um grave problema de saúde em que precisou de um transplante renal aos 33 anos. Então, não tinha medo da UTI, nem de hospital, porque sabia que era assim que tinha que ser!

É claro que algumas coisas irritavam. O que me tirava o equilíbrio era não ter notícias bem explicadas do que estava acontecendo com ele e os procedimentos adotados. Infelizmente, nem todos os médicos têm a capacidade humana da empatia.

Durante os 20 dias em que o Pedro esteve internado tiveram dois acontecimentos que me cambalearam: quando foi iniciada a alimentação e precisou parar porque voltou borra de sangue na sonda (sete dias de internamento) e quando fomos buscar o Pedro que estava de alta e ele teve um episódio de apneia ao ser colocado no bebê conforto (décimo oitavo dia). Foram os únicos dias em que chorei de ansiedade e tristeza! Os demais dias eram lágrimas de emoção, felicidade em contemplar aquele serzinho, sentir seu coração pulsando pelo toque dos seus dedos, sentir seu cheiro, cantar e rezar a oração do Santo Anjo nos três horários de visita!

E ali, já nessa correria de visitas e carinhos, orações e fé pude começar a aprender esse delicioso ofício de ser mãe. Já fui entendendo que filho é como força da natureza: vem e acontece. Ai da gente se quiser segurar, colocar-se na frente, direcionar, dirigir, decidir. Alguma vez li que filho é vulcão e a gente nunca sabe quando vai entrar em erupção. E quando acontece, transforma tudo. E é exatamente isso que sinto quando penso naqueles dias de UTI Neonatal. Se a gente só olha o que poderia ter sido e não foi, vira sofrimento e frustração. Se a gente abre o coração e aceita o inesperado, vira dádiva. E o Pedro é a minha dádiva!
*Texto originalmente publicado em novembro de 2014 no blog de uma grande amiga caderninhodamamae.com.br em homenagem ao Mês da Prematuridade.