Uma semana de grandes emoções

A primeira emoção já foi se despedir da vovó Rita, a companheira de todas as horas e do ano inteiro, no domingo passado. Pedroca sorria um riso cheio de carinho e gratidão. “vá vovó, vá tranquila viver suas merecidas férias”.

Na terça de madrugada, eu e o papai Xuxu estávamos um pouco apreensivos pela primeira viagem de avião do piázito. Uns dias antes, já ficávamos conversando com o carinha, o preparando. Era só falar que íamos voar como o “Dusty – voo rasante” (animação Aviões da Disney e Pixar) que a gargalhada rolava solta. Mas o papai conseguiu um bom preço das passagens em um horário meio ingrato, às 4h da manhã tínhamos que fazer o check in. O piázito chegou ao aeroporto de Foz dormindo, e seguiu dormindo até chegar em Curitiba.  Apesar da frustração de não vermos a carinha dele durante o voo, ficamos aliviados pela viagem ter transcorrido muito bem.

Pausa para contar um pouco sobre a viagem de avião

Nem eu nem o Tiago tínhamos ideia do que preencher no site da companhia aérea sobre a deficiência do Pedroca antes da viagem, então não fizemos nada, compramos as passagens. No dia da viagem, chegamos ao aeroporto e fomos para a fila de atendimento prioritário e apresentamos no balcão as passagens e documentos, despachamos as malas e informamos ao atendente que o Pedro precisava estar no carrinho,  por isso, não poderia ser despachado junto com as bagagens, o que foi prontamente atendido. Foi também nessa hora no guichê que explicamos que o Pedro não tem controle de tronco, por isso, não poderia sentar sozinho. Mesmo assim, eles insistiram que daria certo coloca-lo sozinho com um cinto adaptado de cinto pontas. “Sei não, disse eu. Mas seguimos. Fomos os primeiros a embarcar, com muita delicadeza e gentileza. Como já previsto, Pedroca não parou nem por um segundo no assento sozinho, muito menos com o cinto. A viagem foi de 1h10, Pedroca dormiu todo o trajeto no meu colo. Mas o piázito está ficando pesado, virão viagens mais longas. Será preciso mais planejamento por nossa parte e mais acessibilidade por parte das empresas aéreas. Mas isso é assunto de um próximo post.

Voltando a nossa semana de grandes momentos

Na própria terça, assim que chegamos, outra grande emoção, encontrar o vovô Merão que não o víamos desde julho. Uma delícia tomar café da manhã com ele. Como viemos de avião, para fazer o corre da semana com consultas e exames, iríamos alugar um carro em Curitiba. Mas a madrinha e o padrinho nos emprestaram o carro deles e por isso o vovô veio nos trazer o carro e voltou para Pontal do Paraná. #valeucompadres.

Seguimos nosso cronograma pela manhã e refizemos três exames de audição numa clínica especializada: o conhecido teste da orelhinha (Emissões Otoacústicas Evocadas é um exame que baseia-se na produção de certo estímulo  sonoro, bem como na percepção do retorno desse estímulo, verificando se a cóclea – parte interna da orelha – está normal), o Bera (Exame do Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico que avalia a integridade funcional das vias auditivas  nervosas – nervo auditivo – desde a orelha interna até o córtex cerebral) e a Imitanciometria (um exame em que são testados alguns aspectos do funcionamento da orelha e da tuba auditiva).

Na parte da tarde, nos consultamos com o otorrinolaringologista que acompanha o Pedro desde o início das investigações e como era se de esperar, todos os exames seguiram iguais. Ou seja, é neuropatia mesmo. Já contei sobre isso aqui. Como o Pedroca não está mais usando o aparelho auditivo (usou por um período de um ano e  pouco – dos 11 meses até pouco mais de 2 anos) porque agora dá conta de tirar, o otorrino solicitou que fizemos a Audiometria Comportamental novamente (esse exame avalia o comportamento da criança frente ao estímulo auditivo, por meio de instrumentos musicais e sons da fala). E é aí que outra grande emoção aconteceu! Pedroca já reagia a quase todos os estímulos (reagia a todos os sons em média e alta intensidade e a quase todos em baixa intensidade). Agora Pedroca reagiu novamente a todos esses estímulos sonoros mas a fonoaudióloga que realiza os exames ficou impressionada com a melhora nesta forma de reação, uma resposta mais rápida e intensa, ou seja, uma melhora significativa. Dessa forma, otorrino e fono conversaram conosco e nos disseram que os estímulos que damos durante as sessões de fonoterapia, nas brincadeiras de casa, nas músicas que o papai toca, realmente estão funcionando. E como aparentemente a perda do Pedroca é moderada, vamos intensificar essas sessões de fono para potencializar esses estímulos e dar o máximo de qualidade aos sons que o Pedro escuta. uhu! muito bom né!!! saímos radiantes!!

Na quarta, fizemos dois exames complexos, pela manhã refizemos a ressonância magnética do crânio com espectroscopia e à tarde refizemos o eletroencefalograma em sono e em vigília. Os resultados não poderiam ser melhores. Assim como os dois primeiros eletroencefalograma que fizemos, esse também veio normal! #todoscomemoram Essa também é a terceira vez que fazemos a ressonância que apontou a mesma lesão nos gânglios da base, mas não aparece mais pico de lactato – #todoscomemoram2 – e o melhor, apareceu, pela primeira vez, progressão da mielinização, ou seja, a bainha de mielina, responsável por acelerar o encaminhamento dos sinais, contribuindo para uma comunicação rápida sem perdas de dados. O grau de mielinização influencia a velocidade dando força aos impulsos, quanto mais grossa essa a camada isolante, melhor e mais rápido os dados são transmitidos.#todoscomemoram3

Quinta-feira foi dia de surpreender os médicos. Primeiro, pela manhã, foi a vez do geneticista. Depois, pela tarde, foi a vez da neuropediatra.

Quando o geneticista nos viu na sala de espera e nos cumprimentou, ele ficou encantado com o Pedroca, encarando-o com um sorriso no rosto. Entramos no consultório e ele já foi logo falando: Caramba, como o Pedro está bem. Cresceu, engordou, está mais ativo, com os movimentos mais precisos! Nossa, a gente percebe isso no dia a dia sempre, mas ouvir de um geneticista referência em doenças genéticas que está acostumando com diferentes tipos de pacientes já dá um alento a mais aos nossos  corações. Ao mostrar o exame genético mais recente que realizamos, a cara de espanto: Como assim outro exame normal? Mais alguns minutos e ele solta: Por todos os exames genéticos do Pedro que já fizemos, e por todos os resultados que tivemos, eu posso dizer claramente: não existe um exame genético no planeta hoje em dia que o Pedro não tenha feito. O que isso significa? Que dos erros genéticos conhecidos, Pedro não tem nenhum. Se ele tiver algum erro genético, esse erro ainda não foi catalogado pela literatura médica.

Nossos corações que já estavam acelerados, agora batiam descompassados, praticamente na velocidade da luz. E perguntávamos: E agora? O que faremos? Fechamos o diagnóstico em kernicterus (sequela do amarelão)? E ele, na maior paciência, nos explicou o que imaginávamos. Não podemos fechar totalmente o diagnóstico em kernicterus por vários motivos. Pelos outros exames metabólicos que já deram alterados nos primeiros meses de vida, pela própria clínica do Pedro, pelo fato dele ter sido bem assistido na uti neonatal quando teve o amarelão… Mas por hora, fiquem felizes e orgulhosos, porque o Pedro está cada vez melhor. E continuem estimulando que está dando certo! Saímos de lá radiantes também!

A consulta com a neuropediatra é sempre um prazer. É daquelas profissionais que não tem pressa. Logo de primeira, já ficou admirada: Como está grande, como engordou, como está esperto, mais firme, interagindo mais. Uhu, já estávamos empolgados e desse jeito a empolgação só foi aumentando. Contamos como está sendo nossa vida em Foz, a rotina de estímulos, como foram os demais exames e as consultas. A sensação de ver que está dando tudo mais que certo é indescritível. Entre uma prosa e outra, ela parava e brincava com o Pedro. Entre os olhares atentos a tantos papéis de exames, ela parava para responder com rigor de detalhes nossas perguntas. Uma delas, vale a pena detalhar, sobre o
“progressão da mielinização”.

Segundo a neuropediatra, quanto mais grossa a bainha de mielina, mais dados são transmitidos, ou seja, maior as chances de aprendizado, porque está acontecendo mais comunicação entre as células do cérebro. Assim, é bastante possível que a mielina se modifique quando aprendemos uma nova habilidade motora, pelo surgimento de novos axônios ou com uma mielinização mais intensa daqueles já existentes. A grosso modo, os estímulos – seja por meio das terapias, seja por meio das brincadeiras, as cantorias, leituras ou qualquer outra atividade que mantenha o corpo e a mente em movimento – favorece essa capacidade neural.

Aí é que a gente morre de orgulho mesmo e podemos perceber cientificamente que todo nosso trabalho está valendo muuuuito a pena (pausa para gratidão a toda nossa família, amigos, médicos e terapeutas).  Mesmo assim, fazemos a mesma pergunta que fizemos ao geneticista: é possível que seja “apenas” a sequela do amarelão? Digo “apenas” já que houve até agora a suspeita de uma doença metabólica também. E a neuropediatra, com muita delicadeza, responde: Ainda não podemos afirmar com 100% de certeza, mas hoje, diante da evolução do Pedro, vocês podem respirar mais aliviados por enquanto e vamos reavaliando conforme o tempo e a própria evolução do Pedroca. Não sabíamos se ríamos ou se chorávamos. Mais uma vez, saímos radiantes!

E ao fim da semana, das exaustivas consultas, dos perrengues dos exames, do cansaço de não conseguir dormir pois em Curitiba o nariz do piázito tranca, parece que nada mais importa. A sensação de gratidão invade nossos corações e estamos cada dia mais certos de que o Pedro está bem, saudável, evoluindo, no tempo dele, sem pressa. E finalizamos nossa semana com alguns encontrinhos com grandes amigos, reencontrando a uma parte da família, vivendo mais e mais emoções e rogando a Deus por ser tão generoso e misericordioso conosco.

Devolutiva e a nossa nova luta

Quem me conhece pessoalmente sabe que uma das minhas frases favoritas é que o Pedro nos surpreende a cada dia e vai continuar surpreendendo cada vez. Aí acontece uma reunião dessa e eu acabo por confirmar o que eu sempre acreditei!

Na última segunda-feira, eu e o Xuxu tivemos reunião na escola do Pedro. De quando entramos – fevereiro de 2015 – essa é a segunda reunião geral que participamos lá, é sempre no final do semestre e eles chamam de devolutiva. Achei o nome muito interessante porque o que eles fazem é exatamente isso, nos fala e nos entrega um parecer sobre o desenvolvimento e a evolução da criança no semestre com o objetivo de apontar os pontos positivos e os pontos a melhorar.

A reunião, ou melhor, devolutiva, dura em torno de uma hora, personalizada somente para nós, pais da criança, e é realizada pela maioria dos profissionais que atendem o Pedro. Estavam presentes duas fisioterapeutas, uma fonoaudióloga, uma psicóloga, uma psicopedagoga, a professora do Berçário e a coordenadora da escola.

Um dos principais pontos avaliados do comportamento do Pedro é a motivação. Pedroca tem muita iniciativa e vontade, e isso já é algo muito importante. Mesmo sem conseguir fazer determinado movimento ou ação, o simples fato de querer fazer já é incrível, pois isso vai ajudá-lo a se superar cada vez mais.

Aí vc vai me dizer, mas isso não é bem uma novidade né Anne, você sempre diz que o Pedro é esforçado e tenta fazer as coisas. Sim, não é bem uma novidade. Mas isso era uma impressão minha, do Xuxu, dos avós, de amigos próximos que veem o Pedro com certa frequência. Ouvir isso de profissionais que estão em contato com casos como o do Pedro ou mais complexos até, é realmente uma felicidade imensa!

Cada profissional falou um pouco, nosso coração foi se enchendo de alegria até que a professora do Berçário fala o que está escrito na última linha do relatório:

“Sugere-se a transferência para turma compatível com sua idade dando continuidade a sua estimulação multidisciplinar”.

Aí nosso coração explodiu né! Muito orgulho! A gente convive com ele, percebe que a questão motora é a única coisa que o difere das demais crianças da mesma idade. Mas saber, por especialistas, que o Pedro pode acompanhar uma turma com crianças da idade dele é fantástico!

Agora junto com a luta por mais qualidade de vida para o nosso pequeno grande guerreiro, entramos na luta pela inclusão.

Luta pelo Pedro poder frequentar o ensino regular. Luta contra nossa própria superproteção que pode impedir que o Pedro se estabeleça como indivíduo capaz de fazer escolhas e tomar decisões (desde os primeiros anos de vida). Luta para que todas as escolas públicas e particulares atendam à Norma Constitucional, segundo a qual devem transformar seus sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos.

As escolas públicas e particulares são obrigadas, por lei, a oferecer Atendimento Educacional Especializado – AEE – no contraturno para alunos com deficiência.  A legislação atual também prevê multa aos gestores que recusarem a matrícula de aluno com deficiência na rede de ensino pública ou privada. A nossa luta é pra fazer valer essa lei.

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Parabéns pela dedicação, motivação, iniciativa e vontade Pedro. Elas também são fundamentais para a nossa luta. Obrigada por nos ensinar a cada a dia! E vamos à luta, ela está apenas começando!

 

Nova terapia: protocolo PediaSuit

A primeira vez que vi uma criança usando uma roupinha com ganchos e elásticos que a prendiam nas grades de uma gaiola, confesso que senti uma estranheza. O Pedro não tinha nem seis meses quando começou a fisioterapia e a cada semana que o acompanhava na sessão e via outra criança fazendo a terapia na gaiola me familiarizava com a atividade por enxergar a evolução nas crianças. No decorrer dos meses passei a sonhar com o dia que o Pedro pudesse fazer essa terapia também.

A terapia da gaiola tem nome: PediaSuit.  Segundo o Conselho de Fisioterapia, o PediaSuit é um protocolo de tratamento intensivo usado pelos fisioterapeutas e pelos terapeutas ocupacionais que tem como principal objetivo a recuperação funcional em decorrência dos distúrbios que afetam o movimento.

Curiosa e muito pra frente, passei a perguntar e questionar a fisioterapeuta sobre a possibilidade do Pedro fazer o PediaSuit. O protocolo normalmente é indicado para crianças acima de 2 anos e que possuem um mínimo de controle dos movimentos que eu não saberia explicar agora. E então, foquei que essa terapia seria para um futuro próximo, mas imaginava que seria tão cedo.

E alguns meses foram passando, Pedroca passou a fazer fisioterapia na ONG que é escola especial junto com outras terapias como terapia ocupacional, estimulação visual, fonoterapia, sempre com aquele esforço e aquela dedicação que lhe são peculiares. Eu e o Xuxu vendo a evolução do nosso pequeno começamos a pensar: será que não dá para ele já começar o PediaSuit? Vamos conversar com a primeira fisioterapeuta dele? E ao mesmo tempo fomos chamados pelas fisioterapeutas da escola que disseram perceber que o Pedro pudesse estar pronto para o PediaSuit.

Aí nosso coração foi a mil. A ansiedade só passou quando enfim conseguimos marcar uma sessão na clínica junto com a primeira fisioterapeuta que o Pedro teve e verificarmos a possibilidade dele iniciar. Ela o esticou pra cá e pra lá e disse que seria possível. \o/ Mas tem um porém: é preciso que a roupa sirva. E não é que o nosso pinguinho de gente é comprido! A roupinha destinada às crianças de dois anos serviu \o/ \o/ Mais uma semana pra esperar o início da terapia e eis que o Pedro começa. \o/ \o/ \o/

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Foi um misto de emoções: orgulho por vê-lo fazendo algo bem antes do esperado e por um esforço e mérito dele, angústia por vê-lo chorando assustado por estar preso (algo absolutamente normal mas q parte nosso coração ao ver as lagrimas e choro sentido), esperançosa na terapia para dar a ele cada vez mais autonomia e qualidade de vida.

Bom, foram apenas três sessões e meu coração está repleto de esperança. Nosso foco é nos dedicar, trabalhar com amor e aos poucos vamos colhendo os resultados. No tempo de Deus sempre. E no nosso tempo: trabalhar, confiar e aguardar!

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