Luto, tempo, aceitação e ação

Nenhuma mãe engravida pensando em ter um filho deficiente. Essa possibilidade não é cogitada. Quando estamos grávidos temos muitos planos, idealizamos e planejamos o nascimento do filho.

E aí quando você recebe a notícia que seu filho tem um atraso global de desenvolvimento neuromotor é como se aquele bebezinho que você idealizou tanto tempo, desde os tempos de em que brincava de casinha e sonhava em ter um boneco, tivesse morrido.

E dói, dói muito. É um luto sofrido, é uma aceitação difícil. Mas o que fazer? Seu novo bebezinho está ali, esperando por vocês, tudo que ele quer é ser feliz, ser amado, ser aceito.

É claro que no meio da cabeça e do coração vem um monte perguntas, mais um bocado de dúvidas, um tantão de culpa… sentimentos inevitáveis, mas necessários para elaborarmos a nova realidade. Sentimentos que podem paralisar, é verdade, mas, que devem dar lugar a iniciativa de buscarmos informações, forças em Deus, nos médicos, nos familiares e amigos para assumirmos a responsabilidade, olhar com empatia para nós mesmos e transformar a realidade que tínhamos em mãos.

A partir deste momento, devemos viver o agora, o hoje, com sonhos e expectativas sim, mas relativizadas pela vivência de focar em um dia de cada vez, onde cada pequena conquista dele será uma imensa alegria e motivo de festa.

Como sei que é assim que os sentimentos e as ações devem ocorrer? Porque sou mãe de um lindo menininho de dois anos chamado Pedro e que nasceu com uma disfunção neurológica acarretando alterações em seu desenvolvimento motor.

E quando penso no que desejamos e fazemos pelo Pedro, me solidarizo com os pais e mães que vivenciam esses sentimentos como nós e me lembro o quanto foi importante aceitar essa condição rapidamente. Acredito que cada um tem um tempo para essa aceitação. Tem pais que alcançam esse entendimento mais rápido, outros nem tanto… E a cada dia nos damos conta que para sermos felizes, não basta aceitar o nosso Pedroca como ele é.

É necessário mudar o ponto de vista, manter a mente e o coração abertos, com a consciência de que talvez o nosso filho não consiga realizar coisas que outras crianças conseguem. Talvez ele se atrase. Pode demorar a aprender ou talvez nunca aprenda. Talvez ele precise de mais paciência e mais encorajamento. Talvez ele precise que nós acreditemos mais.

Nós enquanto pais, devemos, rotineiramente, tentar superar de alguma forma aquela tristeza que de vez em quando aparece para que novas portas sejam abertas. É o novo olhar para o futuro, gerando novas expectativas, novos sonhos. Temos a certeza que a felicidade só acontece nesses momentos que admitimos e compreendemos as diferenças. E por isso agradeço sempre ao meu filho Pedro por nos ensinar tanto!

Ao Pedro
Filho, eu e seu pai, a cada dia, buscamos descobrir qual é a melhor forma de ensinar as coisas para você, e assim aprendemos o real sentido da expressão “amor incondicional”. Te amamos.

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA PÁGINA Reabilitação Neurológica Marcia Borges